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Dê aquela espiadinha no horrível jogo do Big Brother Brasil

George Orwell não fazia a mínima ideia do que 1984, o livro que lançara no longínquo ano de 1949, poderia inspirar no futuro. Além de se tornar um verdadeiro clássico da literatura britânica e mundial, algumas de suas ideias foram vistas por John de Mol, em 1999, como uma verdadeira empreitada televisiva. Surgia, enfim, o reality show Big Brother, que trancaria muitas pessoas mundo afora em uma casa cheia de câmeras para puro entretenimento audiovisual.

Não demorou para que isso chegasse ao Brasil — como todo cidadão dessa pátria percebe ao ligar a TV aberta todo começo de ano, desde 2002. O que você provavelmente não sabe é que a “casa mais vigiada do país” também apareceu cedo no mundo dos videogames. No mesmo ano da estreia, era lançado o jogo para PC do Big Brother Brasil… que devia ter ido pro paredão antes mesmo de ser criado. Vamos aproveitar que hoje à noite começa a 16ª edição da versão brasileira do programa para relembrar essa coisa?

Bem-vindos a essa nave louca!

Resumindo esse jogo em uma frase, provavelmente o definiríamos como “uma versão barata de The Sims que não deu certo nem como peso de papel”. O mais interessante é que, na época, ninguém esperava esse fracasso: Big Brother Brasil foi feito pela Continuum Entertainment, uma das pioneiras no desenvolvimento de jogos no país e criadora do aclamado Outlive. O tempo de produção do game talvez sirva de justificativa, já que alguns boatos na internet dizem que tudo foi feito em — pasmem — apenas 17 dias. E, na época, fazer jogos não era assim tão fácil, principalmente com a pressão de uma gigante como a Globo nas suas costas.

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O conceito não poderia ser mais óbvio: você assume o papel de um participante do reality e tem que sobreviver aos paredões para ganhar o grande prêmio no final. Os doze personagens disponíveis já vinham prontos e você não conseguia sequer mudar os seus nomes/personalidades, que, aliás, eram totalmente genéricos. Não tinha nem mesmo o Pedro Bial; sobrava muito pouco de BBB dentro do próprio jogo do BBB.

A única coisa que ainda tentava imitar o programa era a “prova do líder” e os “paredões”, que não poderiam ser mais chatos. Para escolher aquele que teria a coroa por uma semana, esqueça as provas criativas (e cheias de merchandising) e decida tudo na mais pura e aleatória sorte. Já as eliminações são um pouco mais sensatas: assim como no verdadeiro Big Brother Brasil, ter uma boa relação com certos competidores estratégicos levará a poucos votos no confessionário. Ou melhor, levaria, se isso não fosse uma tarefa tão árdua e tão dolorosa.

Contando piadas tão ruins quanto o próprio jogo!

Contando piadas tão ruins quanto o próprio jogo!

Relacionar-se faz parte

Como experiência própria, posso dizer que existem poucas coisas mais chatas e tediantes na vida do que tentar conversar com uma jabuti enquanto ela come uma folha de alface. Tentar jogar Big Brother Brasil consegue ganhar disso, com folga. O seu gameplay realmente se assemelha ao divertido The Sims, no qual você controla uma pessoa e, clicando nas outras, pode escolher ações para fazer com ela, como conversar, brigar, abraçar ou ter um relacionamento mais íntimo. Conforme a vida segue, certas barras aumentam ou diminuem, mostrando a fome, a energia, a felicidade e outros sentimentos da sua personagem.

A Continuum tentou fazer algo nessa linha e, de certa forma, conseguiu. É possível conversar, contar piadas e xingar outros brothers — com direito a balãozinho de conversa animado e grunhidos esquisitos a cada interação. O problema é que só existe isso pra se fazer nesse jogo! Nada de diferente acontece durante as semanas, nenhuma outra mecânica é apresentada. Algumas coisas que poderiam dar um respiro ao que ainda sobra de jogo nessa coisa (a prova do Anjo, a prova da comida, o Big Fone, os paredões triplos) nem sequer tinham sido inventadas na TV ainda… e acabou que o jogo do Big Brother Brasil se resumiu apenas a essa monótona experiência de acompanhar barrinhas se mexendo.

O momento que "cobra" e "hashtag" tornam-se palavrões (sim, isso é o efeito da ação "Xingar")

O momento que “cobra” e “hashtag” tornam-se palavrões (sim, isso é o efeito da ação “Xingar”)

Não vale nem umas estalecas

Se você leu até aqui esperando que daria pra salvar alguma coisa nesse jogo, o único aspecto, digamos, aceitável é a tentativa de fazer alguma coisa boa. Por mais que não se possa esperar muito da parte gráfica de um título brasileiro do início dos anos 2000, a casa do BBB era feia até mesmo para a época. Análises feitas no lançamento do game já apontavam a inferioridade do título também no quesito visual; na verdade, ele tem umas texturas bem preguiçosas e uns personagens muito mal modelados.

“Se pudesse escolher entre o bem e o mal” — como Paulo Ricardo nos ensinou na música-tema do Big Brother Brasil (que também não está presente no game, que novidade) — eu te digo para escolher ficar bem longe desse jogo. Péssimo em todos os quesitos possíveis e imagináveis, não tem discurso bonito e sem sentido do Bial que possa salvar esse título. Vai por mim, dar uma espiadinha é só na televisão mesmo.

P.S.: Existe uma chance de 0,00000000000001% de você ficar como nesse vídeo ao fim do jogo, mas o PlayReplay não aconselha tentar.

Cientista da computação em formação, sempre encontra tempo para falar sobre jogos, séries, filmes e viagens no tempo. Adora jogos musicais e puzzles e ainda vai te convencer a aceitar Back to the Future como o melhor filme da sua vida. No PlayReplay, você pode encontrá-lo escrevendo textos e fazendo vídeos.
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