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Compramos mais do que podemos, jogamos menos do que gostaríamos

Mudou o status! Saiu para a entrega! Saiu do buraco negro de Curitiba e está vindo para a minha casa! Chegou! Que capa perfeita, e tem manual de instruções! Vou tirar uma foto para o Instagram, assistir à introdução e… guardar na prateleira, junto com todos os outros.


 

Nos falta tempo e isso não é novidade pra ninguém. Trabalhando, com sorte, 44 horas semanais e mais as duas malditas horas de translado, todo santo dia, fica difícil conciliar tudo isso e ainda achar tempo para todos os jogos que compramos. No fim-de-semana, achar tempo para encontrar um amigo, a namorada, visitar a avó, fazer a revisão do carro, almoço em família, assistir o futebol e, quando menos esperamos, acabou o Fantástico. Mas e o jogo novo, onde fica?

 

Na sua estante

Somos todos loucos por videogames. Se você está lendo esse texto, há uma grande chance de você ser tão apaixonado quanto eu (high five!) e todos os outros membros do PlayReplay. Respiramos, comemos e rezamos jogos, a todo momento, mas mesmo tão envolvidos com o tema, padecemos do mesmo mal: a bendita estante sugadora de jogos que ainda não tivemos tempo para jogar.

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Meu caso é crônico: vibro com o anúncio de um jogo novo, assisto todos os vídeos e leio todas as notícias divulgadas sobre ele, às vezes até sonhando com o momento de jogá-lo. Pego uma promoção lá de fora, espero com ansiedade dando refresh de 5 em 5 minutos no site do correio, rasgo o pacote como um cachorro rasga o jornal, vivo o êxtase e logo esqueço. Why u do dis?

Bem, em primeiro lugar, compro porque é meu papel como um apaixonado por jogos. Afinal, como deixar de comprar o último jogo da série Final Fantasy, se eu já tenho quase todos os outros? Nunca, mas nunca mesmo, eu admitiria ter esse buraco na minha coleção. Terminei os primeiros 9 jogos da série com muito afinco, na época em que eu ainda… não… trabalhava, e… tinha tempo! De lá pra cá, muita contemplação e pouca ação! Mas eu não resisto e continuo comprando!

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Isso não é um mal exclusivo dos jogos, já que tem quem faça o mesmo com livros, séries e filmes. Postergamos nosso próprio lazer, em detrimento de outras obrigações que o mundo adulto nos impõe. Prometemos a nós mesmos que vamos nos colocar em dia com Game of Thrones, ou que vamos jogar todos os Metal Gears em ordem cronológica, mas no fim fica tudo como está. O que é opcional, bem, acaba ficando como última opção mesmo, já que mesmo quando temos tempo livre, num belo feriado prolongado, gastamos boa parte dele em procrastinação digital (leia-se Facebook, Twitter, Whatsapp ou similar). Trágico.

 

Cultura do consumo

Esse nosso consumo desenfreado tem raízes profundas e é algo pertinente a nossa cultura, meus amigos. Sim, é algo puramente comportamental, justificado pelo nosso desejo de reafirmar quem somos ou queremos ser. Sabem aqueles comerciais de perfume que mostram um modelo gostosão dirigindo um conversível, rodeado de mulheres perfeitas? Então, sinto te dizer mas você achou melhor trocar as modelos por… jogos!

A teoria do consumo conspícuo defende que nós usamos o nosso poder de compra para assinalar a nossa posição social enquanto classe emergente. Um desejo profundo de ser reconhecido perante a sociedade como alguém relevante, ou seja: tá tudo dominado e nós estamos ostentando a nerdice. Pelo menos, assim disse Thorstein Veblen, economista norte-americano, em “A Teoria da Classe Ociosa”, de 1899.

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O grande problema disso tudo é que, para poder consumir mais, precisamos trabalhar mais. E se trabalhamos mais, temos cada vez menos tempo para nos dedicar ao que compramos. Daí, a estante lotada de jogos, livros e discos que ainda não tivemos tempo de apreciar.

Vendo que esse ciclo vicioso se repetia em grande escala, criou-se o movimento downshifter, formado por pessoas que decidiram puxar o breque do consumo (daí o nome) e viver uma vida mais lenta, consumindo menos, mas também trabalhando menos. Se dá certo? Honestamente, não faço a menor ideia. Mas é um caminho. Regrar e condicionar o nosso consumo pode parecer drástico demais, já que as oportunidades são tentadoras. Fazer o quê? É a eterna briga entre a razão e a paixão, onde um lado pende pela calma e o outro, pelo impulso.

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Aqui em casa a regra agora é: zere, leia, ouça e assista o que tem antes de comprar um novo. Enquanto tiver material lacrado na bendita estante, segura a onda que o bolso vai agradecer! E o mercado, claro, insiste em me tentar com promoções, edições limitadas e tiragens baixas. Um cartão estourado aqui, uma dívida bola-de-neve ali e a gente acaba aprendendo a lição:

Videogame ostentação? Melhor não!

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