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Lady Bird está muito acima dos demais

Acostume-se com o nome Greta Gerwig pois, salvo uma grande zebra, provavelmente ainda vamos ouvir um bocado sobre ela nos próximos anos. A escritora e diretora de Lady Bird já era uma queridinha do circuito independente, mas provavelmente você, como eu, só teve contato com ela agora, em seu segundo crédito como diretora.

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É até difícil acreditar que seu currículo é tão curto, tamanha a delicadeza e perícia com a qual a jovem domina a câmera e seu elenco. É um trabalho de gente grande e madura na arte, que contrasta diretamente com os breves 34 anos de idade da cineasta. Há quem passe uma vida inteira no ofício sem conseguir filmar obras tão tocantes e viscerais!

A protagonista do filme, Christine McPherson (interpretada pela fantástica Saoirse Ronan), por outro lado, começa sua jornada em ponto bem distante ao da autora, com um longo caminho a percorrer até alcançar a maturidade. Ainda na escola, Christine dá a si mesma o nome de Lady Bird, e seguimos sua história de descoberta pessoal até o momento em que ela entra para a faculdade.

lady-bird-filme-critica

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Como boa trama de “coming of age” (aqueles filmes de amadurecimento adolescente que existem às centenas por aí), vemos a garota sonhar com uma vida melhor na cidade grande, com mais dinheiro, oportunidades, romances e aventuras, enquanto ela faz seu melhor para sobreviver à pacata vida de classe média em uma escola católica, onde o maior desafio é não zombar do moralismo exacerbado das freiras.

Naturalmente o filme passa por todos aqueles temas que todos que já foram adolescentes um dia precisaram enfrentar, desde a construção de expectativas surreais com delírios de grandeza, corações partidos, até a inevitável rebeldia sem causa contra o sistema. No coração desse turbilhão de emoções ficam os pais de Christine, especialmente a mãe, que é ao mesmo tempo a maior aliada e “inimiga” da protagonista.

Laurie Metcalf manda super bem todas as vezes que precisa contracenar com Saoirse, e seria surpreendente não ver a dupla indicada e premiada em todas as oportunidades possíveis. Ao longo das quase uma hora e meia de filme, mãe e filha passam por diversas situações emocionalmente intensas, e beira o impossível cravar qual das duas atrizes se sai melhor em cena. O que importa é que a química delas é fenomenal!

Como a mãe tem dificuldades para extravasar verbalmente seus sentimentos, muito do filme é narrado mais com as atitudes e reações das atrizes. Sutil e elegante, o roteiro constrói um relacionamento mundano, porém riquissimo nas sutilezas de suas entrelinhas. Vale até preparar alguns lencinhos, pois mesmo sem quaisquer golpes emocionais baratos, o amor que existe entre as duas e a busca pela melhor forma de comunicar isso é arrebatador.

Nestes tempos em que a batalha pelo empoderamento feminino anda tão em voga, é uma gratíssima surpresa encontrar um filme que trata suas personagens e o tema com tamanha elegância e bom gosto. É difícil imaginar que Greta não tenha despejado uma boa dose de autobiografia na trama, já que toda a jornada soa demasiado honesta. Nisso, risadas e lágrimas vêm fácil, fruto da empatia que criamos com os dilemas apresentados aos personagens.

Superficialmente, seria fácil dizer que Lady Bird se limita a narrar a transformação de uma menina em uma mulher, passeando pelos erros e dilemas pelo caminho, mas o filme é muito mais que a soma de suas partes. Ao trazer pura poesia ao mais mundano dos espetáculos, a diretora honrou o nome de sua protagonista e alçou o mais alto dos voos. Ave, Greta!

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