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Entrevista com Jeff Ryan, autor de Nos Bastidores da Nintendo

PlayReplay: Não temos muitos livros licenciados sobre videogames aqui no Brasil, mas o seu “Nos Bastidores da Nintendo” emplacou uma grande editora e vendeu muito bem. Deve ser fantástico ver o seu trabalho ver tão bem recebido pelo mundo…

Jeff Ryan: Fico muito satisfeito, obrigado! Tivemos que apresentar o livro às editoras como uma obra de “subcultura” porque não havia muitos livros sobre o assunto na época. Então foi engraçado, pois tive que explicar às pessoas que essa tal “subcultura” já era mais popular que os filmes!

Você sempre quis escrever sobre videogames? Como entrou no mundo da Nintendo?

Como quase todos, cresci jogando videogame. Primeiro no T1-994a, depois do NES e, finalmente, no Mega Drive. Me distanciei no colegial — queria poder dizer que foi por causa das garotas mas, na verdade, foram os quadrinhos (risos). Talvez eu tivesse continuado distante se não fosse a oportunidade que recebi de escrever análises de jogos para um site de cultura pop. Foi aí que notei o quanto a história dos games era basicamente a história do Mario. E contá-la me permitiu explorar 30 anos de história dos jogos eletrônicos!

Qual seu sistema favorito da Nintendo até agora?

Comprei um Game Boy já no lançamento, e pelo primeiro e segundo anos eu levava praticamente todos os jogos para casa. Só parei porque nenhum adolescente tem tanto dinheiro, e quem quer um quinto jogo sobre beisebol quando você nem jogou os outros quatro ainda?

Acha que o passado da Nintendo como desenvolvedora de brinquedos impactou muito sua filosofia nos videogames?

É um ótimo pensamento. Eles realmente olham seus videogames como uma forma de brinquedos eletrônicos, enquanto gente demais os enxerga como filmes…

Qual foi a maior descoberta que você fez em sua pesquisa?

Quanto dinheiro “Donkey Kong” conseguiu arrecadar. Foram 180 milhões de dólares em 1981 e outros 100 milhões em 1982. A Nintendo nunca esteve quebrada, sequer flertou com a ideia de precisar lançar um único game para salvá-la da falência. Todas as suas decisões, inclusive as mais estranhas, podem ser explicadas pelo fato da Big N tomá-las enquanto está sentada sobre um prédio de 20 andares cheio de dinheiro.

Você soube que a Nintendo deixou o mercado brasileiro em 2015? Muitos jogadores daqui culpam não apenas nosso governo e seus impostos, mas também o modelo de negócios conservador da companhia. Afinal, tanto a Sony como a Microsoft estão razoavelmente firmes por aqui. Acha que a estratégia da Nintendo foca demais no mercado japonês e norte-americano e joga seguro demais em outros mercados em potencial?

Fiquei chocado com a decisão da Nintendo de sair do Brasil. É mais uma daquelas decisões tomadas na pilha de dinheiro: qualquer outro negócio acharia um modo de servir um mercado de 200 milhões de pessoas, mas a Nintendo simplesmente pega sua bola e volta pra casa. Talvez eles simplesmente estejam acostumados com isso, já que os videogames têm uma longa história de desistências no mercado chinês.

É curioso que a Nintendo também nunca tenha explorado os jogos de tiro militares, exceto por “Yoshi’s Safari” em 1993. Eles mal exploram o mercado para maiores de 18 anos, fazendo praticamente nada com suas propriedades intelectuais de primeira.

E temos também uma pilha de jogos extremamente populares que nunca deram as caras no Virtual Console. É como se a Nintendo apostasse em dois negócios: fazer dinheiros e deixar dinheiro pegando teia de aranha.

Com as vendas fracas do Wii U, acha que é hora da Nintendo mudar seu plano de marketing e negócios? Ou talvez eles nem liguem mais pro console e já estejam pensando em uma revolução para a próxima geração? O que você acha?

Minha teoria — que foi derrubada como um pato de “Duck Hunt” — era que a Nintendo finalmente largaria a televisão para lançar um console baseado em hologramas, já que alguns anos atrás eles discretamente mostraram um protótipo dessa tecnologia. Ao invés disso eles lançaram o Wii U, que seria um ótimo console… em 2006.

Mas, como sempre, os jogadores ainda pagam por consoles mais fracos para ter acesso aos jogos fantásticos da Nintendo. Não tantos quanto antes, é verdade, mas ainda o bastante. É melhor do que na geração 32 bits, quando a Nintendo esperou um ciclo inteiro com seus cartuchos de SNES enquanto prometia um “Ultra 64”. Agora os jogadores tem um console meia bomba, mas é melhor do que nada.

Qual sua opinião sobre as outros desenvolvedoras? Acha que a Sony e Microsoft enxergam seus produtos mais como serviços, enquanto a Nintendo parece ser a única com um sistema “puro”, sem suporte a músicas, filmes, etc.?

De acordo! A Nintendo se dedica quase que exclusivamente aos videogames, embora o resto do mercado já tenha partido para o entretenimento inter-mídias. O acordo que ela pode ter firmado com a Netflix para uma série de “Zelda” é, espero, apenas um primeiro passo no mar que levará seus personagens para além dos consoles. Se a Nintendo fosse uma pessoa, ela teria sua própria casinha solitária, usando internet discada para se conectar à America Online.

Mas isso é parte de seu charme. Sabe, é como o Neil Young se recusando a usar equipamentos de gravação digitais. Eles são artistas, e artistas têm suas próprias manias. Tenho certeza que as irmãs Wachowski poderiam fazer rios de dinheiro com filmes idiotas de ficção científica, mas elas fazem o seu próprio negócio, que não é tão comercial mas, no fim das contas, é o que elas querem fazer.

Essa entrevista foi conduzida originalmente em 2015, muito antes do anúncio do Nintendo Switch.

Formado na arte de reclamar, odeia a internet. Ainda assim, sua hipocrisia sem limites o permite administrar a página facebook.com/thomasschulzeescritor , plataforma de divulgação do seu primeiro livro. Você também pode segui-lo em @thomshoes no Twitter, mas provavelmente é uma má ideia...
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