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Everything é um videogame sem igual

Raposa, satélite, bóson de Higgs, mitocôndria, plataforma petroleira, galáxia em espiral e um pedaço de pizza. O que todas essas coisas têm em comum? Bom, para começo de conversa, já é bom saber que todos eles, assim como tantos outros milhares de animais, partículas e objetos, são personagens jogáveis em Everything. Mas, como o próprio jogo defende, sua ligação é muito mais profunda do que isso.

Como não poderia deixar de ser, essa premissa alucinante surge inicialmente com ares bem humorados: embora o conteúdo do game seja randômico e gerado proceduralmente, é certo que cada jogador viverá primeiros minutos de gameplay bem… peculiares, no eufemismo do século.

No meu caso, logo após uma brevíssima introdução, minha missão era fazer um bisão rolar por pastos e cordilheiras tentando aprender sobre os diferentes pontos de vista de tudo que existe ao seu redor. Ao melhor estilo Douglas Adams, a ideia era tão maluca e infinitamente improvável quanto profunda e inteligente. Da maior rocha à menor folha no chão, tudo que existe parece preocupado em compartilhar um pouquinho de sua visão sobre o mundo.

Everything é quase um episódio interativo da série Cosmos, de Carl Sagan

Que fique claro, você não é obrigado a ler ou considerar essas informações. Como bem me alertou uma girafa, “Todo mundo tem algo a dizer. Mas nem tudo vai ser útil. Embora tudo até seja útil no fim das contas.”. De fato, essa parece uma boa forma de entender a mitocôndria depressiva que me disse: “Não há nada inútil aqui, nem mesmo a inutilidade em si. Exceto eu, claro. Me sinto um pouco inútil na maior parte do tempo… mas todo o resto parece estar ótimo”.

Só é possível conversar com coisas tão diferentes entre si graças à inteligente jogabilidade do game. Funciona mais ou menos assim: enquanto você controla o que quer que esteja controlando, basta se aproximar de qualquer outra coisa. Se o objeto for maior que você, é possível ascender até seu ponto de vista. Caso seja menor, um outro botão aparece para possibilitar o descenso. Caso eles tenham um balão de pensamento sobre suas cabeças, aperte outro botão para conversar.

Passo a passo, você pode fazer o caminho “completo”, encolhendo até a escala subatômica ou crescendo até que suas proporções cósmicas sejam tão colossalmente gigantescas que você começa a viajar entre fractais, raios e formas geométricas ao melhor estilo do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço.

Mesmo que não seja correto apontar um objetivo final para o game, que é muito mais contemplativo e voltado à exploração do que qualquer outra coisa, dá para dizer que o gameplay o estimula a perseguir algumas metas. Conforme se explora o cosmos, cada coisa incorporada pelo jogador é acrescentada à sua enciclopédia universal. Ao avançar um pouco pela “campanha”, você ganha o poder de transformar-se em tudo que catalogou quando bem entender.

Além disso, ganhar conhecimento sobre o cosmos faz com que algumas coisas compartilhem arquivos de áudio narrados pelo filósofo Alan Watts. Eu não conhecia seu trabalho antes de jogar, mas após jogar pouco mais de quatro horas de Everything, estou mais do que interessado em mergulhar no seu trabalho, que parece incorporar um bocado da filosofia e crenças orientais, proporcionando um choque maravilhoso de informações quando estas são confrontadas às últimas descobertas da física.

Não é raro ver o talentoso David OReilly comandar obras instigantes. Afinal, ele foi responsável por coisas como as animações do filme Guia do Mochileiro das Galáxias; o roteiro, produção e animação do episódio A Glitch is a Glitch, de Hora de aventura; além de criar os segmentos de videogame da ficção científica Her. Falando em jogos, ele também já havia sido bem sucedido com o belo e provocador Mountain.

David ajudou na elaboração das entradas do Guia no cinema, e seu novo jogo remete bastante a Douglas Adams

Mesmo com todo esse currículo, é quase certo que Everything será lembrado como um de seus maiores trabalhos. Cosmicamente épico, emocionalmente arrebatador, educativo e informativo sem jamais se esquecer de seu papel como divertido jogo eletrônico, Everything é um produto cultural sem igual.

Caso algum dos temas expostos acima lhe interesse minimamente, não hesite e baixe o jogo agora mesmo. De acordo com a Wiki do game, o próprio David disse esperar que “Everything faça as pessoas se sentirem melhores sobre suas vidas”. Ao menos no que diz respeito ao autor desse texto, a missão foi cumprida com louvor.

Everything – Nota: 5/5

Produtora: Double Fine
Plataformas: PlayStation 4, PC
Plataforma utilizada na análise: PlayStation 4

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