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As lendárias frases equivocadas sobre Desenvolvedores de Jogos Digitais

Dentro do mundo dos gamedevs, muitas frases são velhas conhecidas. Sejam perguntas ou afirmações do trabalho do desenvolvedor de jogos, elas revelam alguns equívocos sobre o setor e que precisam ser esclarecidos.

Vamos explorar alguns dizeres bem comuns e tentar entender que não passam de falta de informação.

“Um grande jogador será um grande desenvolvedor”

Essa é uma afirmação muito comum, e pra falar sobre ela nem vou entrar ainda na parte de jogos digitais. Na área de software, fora do entretenimento, já fiz pesquisa com alunos sobre o que buscam o curso de programação, suas motivações etc.

Na pesquisa, 75% pensava que iria aprender manutenção de computador ou ainda ser usuário de software. Esse último, resumindo, achava que ia aprender a mexer no Windows, pacote Office e afins. Já 25% dos alunos apenas sabia que ia programar mesmo, tendo noção do que era a função.

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Isso acaba se repetindo na área de jogos digitais. Muitos alunos adoram jogar e vão para cursos ou graduações na área. Só que chegam lá e se deparam com física, matemática, lógica de programação, pensar e pensar e… muito suor!
Muitos achavam que iam jogar e que, para se tornar um bom desenvolvedor, gostar de jogos seria suficiente. Ser gamer até ajuda em busca de referencial, ideias, mas não é fator definitivo para te transformar em desenvolvedor.

É o mesmo que dizer “eu adoro mexer no Word, Office, Windows e Linux. Já sei… vou fazer programação.” Não, o caminho definitivamente não é esse. Estou cheio de gente que adora mexer e ficar no computador, mas, quando cai em um estudo/curso desses, vê que não tem perfil.

Tem que tomar cuidado, principalmente, com os cursos caça-níqueis por aí que contribuem com uma visão errada disso. Analise bem antes de fazer um investimento.

“Quem desenvolve jogos digitais joga o tempo inteiro”

Semelhante ao equívoco de quem gosta de jogar, esse é referente aos trabalhos do desenvolvedor. Mas, nesse caso, a maioria pensa “vou ser um testador de jogos, parece ser a melhor profissão do mundo,” ou “uhul, vou só jogar o dia todo. Que festa!”.

Pela minha experiência: quando você fica imerso no desenvolvimento de um jogo, você realmente testa muito. Mas sempre com visão de desenvolvedor, testando funcionalidades, sempre com olhar crítico de maneira geral. Fora que, quando você termina um projeto, tudo que você não quer fazer é voltar a jogar o game que criou. Não é porque você odeie seu game ou ele não seja divertido, mas sim porque enjoa. São tantos testes feitos com esse olhar crítico que cansa. Eu, por exemplo, não podia mais nem ver os jogos que fiz. Só nos eventos para ver a galera jogando. =)

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Mesmo que você seja um playtester, você terá que testar observando uma série de coisas, terá um foco no teste para o que será testado, um checklist para conferência e outras preocupações. Ou seja, não será o mesmo que jogar como jogador.

Já pensou você naquele clímax todo com o chefão? Aí tem que pausar para fazer anotações de melhoria para aquele desafio respectivo, depois volta, para, volta… Não é a mesma sensação, percebe?

Então não, você não jogará o tempo inteiro. Existem outras atividades envolvidas no processo e, quando você for jogar, será sempre com aquelas preocupações todas, não uma partida livre. Mesmo que seja playtester.

“Precisa estudar para desenvolver jogos digitais?”

Parece brincadeira, mas já ouvi isso em fóruns, principalmente de iniciantes. De fato, acho a área de jogos especial por ser multidisciplinar, além de ter um produto como linha de estudo/pesquisa. Mas isso não significa que não precisa estudar por isso ou por ser uma área de entretenimento. Só porque trata de diversão, vamos tocar de qualquer jeito? É claro que não.

Se pensarmos assim, não precisa planejar ou estudar para fazer teatro, cinema, literatura… Isto é, se você pensa em algo com qualidade — porque porcaria tem em qualquer segmento.

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Só para atuar na programação, é preciso ter boa noção lógica, matemática e física. Para não falar depois das específicas da área como programação e seus paradigmas, por exemplo, ou inteligência artificial.

Então, meu caro… precisa estudar e muito, além de botar em prática, pegar experiência. É preciso ficar “macaco velho”, já identificar coisas que podem dar errado sem nem precisar implementar ou projetar. Já diz o ditado: “macaco velho não sobe em galho seco”.

“Ele faz joguinhos…”

Essa é parente do “eu preciso de um sisteminha para controle de clientes.” O diminutivo, se não for para relacionamentos afetivos – significando carinho – é para, como já diz, diminuir.

Joguinho denota um sentido de “ele faz algo inferior” ou “que crianção, trabalha com joguinhos.” Não conheci nenhum desenvolvedor que gostou dessa expressão até hoje (até porque dá um trabalhão fazer um jogão). Então… evite de usar “joguinho” para se referir aos jogos. Pedimos encarecidamente a você.

Eu fico imaginando a equipe de Witcher 3 ouvindo algo do tipo “esse joguinho é bom mesmo, hein!” Devem ficar tentados a usar as duas espadas e cortar algumas cabeças. Zoeira. :)

“Eu quero fazer um jogo simples…”

Aqui existe uma confusão. Vivi isso muito na pele atendendo clientes para jogos customizados. Você analisava o jogo simples que queriam e de simples não tinha nada. O orçamento então, quando enviava… “Muito caro para um jogo”. Era o valor de mercado e queriam pagar bem menos, mesmo você demonstrando o tempo de produção, equipe, gastos necessários…

Sei que outras áreas de prestação de serviços se identificaram com esse momento mas, em jogos, acontece isso por alguns fatores: 1) Não levam a sério porque é jogo, acham que é “facinho” de fazer; 2) Porque o jogo é simples de jogar, então deve ser simples de desenvolver, né?; 3) Por ser jogo, entretenimento, significa ser mais barato (pois é, já ouvi isso); e 4) Não querem mesmo pagar o que valem, dar valor ao projeto, então pechincham etc.

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Tem que tomar cuidado: simples de jogar não significa simples de fazer. Tente fazer um Candy Crush completo e verá que não é tão trivial assim.

“E isso dá dinheiro?”

Já sabemos e é velha conhecida a afirmação de que os jogos digitais já passaram a indústria do cinema, isso em termos de faturamento.

Mundialmente falando, é uma potência e tanto. Basta pesquisar os relatórios da ESA (Entertainment Software Association) para se ter uma ideia. Todo ano esse relatório  é bem atualizado e demonstra a viabilidade de um ramo como esse. No Brasil, recomendo que consulte a pesquisa do BNDES com o levantamento das empresas de jogos digitais, faturamento delas e tudo. Também indico o estudo do SEBRAE para aprofundar bem em terras tupiniquins esse setor.

Com esses conhecimentos, você terá condições de responder essa pergunta. mas já adianto que sim, dá dinheiro. ;)

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Essas são algumas frases que já levantei direcionadas aos desenvolvedores. Também existem outras direcionadas à área de jogos digitais em geral como “é coisa de criança”, “só para meninos”, “criam pessoas violentas” e por aí vai. Mas isso deixo para outra postagem.

Esse pode até parecer um texto tipo “o Fabiano está reclamando” ou “o autor está fazendo mimimi.” Bem, de fato estou, querendo ou não, mas é importante que façamos uma reflexão sobre isso. Muitos desses preconceitos fazem não se levar a sério a área de jogos digitais como um todo. É importante mudarmos esse pensamento e a cultura criada. Todos só tem a ganhar, sejam jogadores ou desenvolvedores.

Caso eu tenha esquecido de alguma frase, deixo o espaço aberto para que você também compartilhe suas experiências. Já ouviu alguma frase semelhante?

E deixo o convite para que você acesse também o Fábrica de Jogos e aprenda conosco a criar jogos digitais com tutoriais, podcasts, artigos etc. A criar jogos mesmo, e não joguinhos (e muito menos de maneira simples).

Um abraço e até mais. ;)

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