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Interpretando o final de Sherlock pela “Teoria Doyle”

Eu sou um cara chato para seriados. Muito chato! Considere-se avisado antes de me xingar nos comentários, mas preciso deixar isso claro antes de expor meus argumentos. Game of Thrones não me causa qualquer sentimento além do tédio, Stranger Things era nostalgia rasa sem conteúdo, e Westworld foi enfadonhamente ordinário em cada aspecto. Desde que Lost chegou ao fim, o único drama para televisão que conseguiu me deixar engajado pela trama e seus personagens foi o Sherlock da BBC.

Acho que isso acontece porque adoro assistir um programa no qual os autores estão muitos passos à minha frente, escondendo mistérios, reviravoltas e surpresas em cada esquina. A melhor sensação que a televisão pode me causar é jogar uma cena totalmente inesperada na minha cara. Quando Lost fez esse truque em sua forma mais magistral, na já clássica cena do “We have to go back!”, na qual descobrimos não estar assistindo mais um flashback, mas sim o primeiro flashforward de Lost, acabei batizando esse maravilhoso evento como “um tapa na cara”.

Moral da história: assim que Lost chegou ao fim, como bom masoquista, fiquei órfão dos tais tapas. Qual não foi minha surpresa, então, ao baixar casualmente o primeiro episódio de Sherlock pouco depois de sua estreia, e descobrir uma maravilhosa e apaixonante criação de Steven Moffat e Mark Gatiss?

Episódio após episódio, a dupla conseguia me surpreender com viradas deliciosas de roteiro. Já profundamente investido nos personagens, era fantástico rir e chorar ao seu lado enquanto Holmes e seu parceiro Watson protagonizavam cenas incríveis. Do toque de celular com aquele gemido cômico até a queda no telhado, não faltam grandes momentos na memória.

Foi um privilégio e prazer assistir cada minuto de Sherlock, e foi nesse estado de espírito que vi o episódio final da série, adequadamente batizado como The Final Problem. O problema? Eu não gostei nem um pouco dele.

Estranhamente, a despedida da quarta (e última?) temporada mais parecia um filme de ação estrelado pelo 007. Tudo bem que não havia metralhadoras e martinis à vista, mas a maior parte da narrativa foi mostrada de forma tão direta e linear que não parecia haver muito espaço para as reviravoltas inesperadas. Onde estavam os meus tão queridos “tapas” tão presentes nos capítulos anteriores?

Quando as cortinas desceram e os créditos começaram a rolar, eu olhava atônito para a tela. Pela primeira vez em quase 30 anos assistindo televisão, eu sentia que ou eu tinha acabado de ver algo muito ruim, ou eu não estava enxergando uma peça importante do quebra-cabeça. Após um breve retiro em meu palácio mental (quem dera), eis que ele chegou. Súbito e sem aviso, um tapa me pegou em cheio: “Eurus Holmes é Sir Arthur Conan Doyle”.

Só não interprete essa frase de forma literal demais, dado que o saudoso escritor não está mais entre nós desde 1930, enquanto Eurus é apenas uma personagem fictícia. Pense de forma um pouco mais poética. Pense nas similaridades entre os dois. Pense no modo como ambos são responsáveis pela criação de Sherlock Holmes a seu modo.

Estabelecer isso parece um bom ponto de partida para explicar uma interpretação que, imagino, não será das mais felizes para a maioria dos fãs, mas que mudou minha visão sobre o fim e me deixou plenamente satisfeito pelo encaixe que acontece entre o episódio final da série e a mitologia que cerca o detetive até no mundo real. Com alguma sorte, as próximas linhas formarão um enigma instigante digno da alta qualidade do seriado.

O problema final é o seguinte: E SE… tudo que você viu desde o primeiro episódio, A Study In Pink, até os minutos finais de The Final Problem, forem apenas projeções criadas pelo cérebro brilhante e perturbado de Eurus Holmes?

Imagine, por um segundo, que as únicas verdades sobre a mitologia da série sejam o fato de que, alguns anos atrás, uma menina verdadeiramente genial se sentia sozinha e ignorada por seus irmãos. Um dia, tomada por ciúmes, ela decide se livrar de Redbeard, apelido carinhoso do melhor amigo de seu irmão. Ela prende o menino em um poço e acaba com sua vida na medida em que o pobre menino é afogado pelas turvas águas de um poço abandonado.

Horrorizada pelo ocorrido, sua família interna a garota e a isola do convívio social, um sofrido sacrifício para uma menina que seria eternamente atormentada pela morte, mas um mal necessário para que seus irmãos possam viver em relativa paz depois da tragédia. Assim, a pobre menina genial acaba presa em ambiente claustrofóbico tendo somente a morte como sua companheira. Mais ou menos como a cena de abertura do episódio:

Só que nem mesmo uma mente genial é capaz de apagar o trauma daquele dia maldito. Como ela poderia fazer isso? Como parar de lembrar da injustiça cometida contra Redbeard? Pior, como se perdoar por ter machucado tanto o seu próprio e amado irmão, que teria que crescer convivendo com o fato de que sua irmã é a assassina de seu melhor amigo?

É aqui que as coisas começam a ficar interessantes. E se a genial Eurus Holmes pudesse criar uma nova vida para seu irmão? E se ela pudesse fazer com que o pequeno Sherlock tivesse não apenas a mesma inteligência apurada que ela, mas também ganhasse um melhor amigo de volta?

Eis que surge John Watson. Mas não apenas John Watson, pois isso seria vazio demais. Para compensar Redbeard, era preciso criar muito mais do que um novo amigo para Sherlock. Era preciso criar uma nova realidade para sustentar a ficção. O que é apenas um jeito mais elaborado de dizer “Eurus Holmes criou tudo que você assistiu desde o primeiro segundo do seriado até a cena em que ela tocava violino sozinha em sua cela”.

Sim, sozinha. Porque o Sherlock que Eurus vê do outro lado do espelho, tocando a mesma canção que ela, não é nada além de uma projeção. Lembra que a própria Eurus afirmou ter ensinado Sherlock a tocar violino? Sherlock sabe tocar porque Eurus sabe tocar. Ambos são a mesma pessoa.

Nesse sentido, a série é bem didática ao mostrar como os temas e sentimentos de Eurus se espalham pela narrativa de Sherlock Holmes. A mesma água que sufucou Redbeard leva seu irmão ao fim na Queda de Reichenbach. A água está lá na piscina do primeiro encontro com Moriarty, e, claro, catalisa a revelação máxima quando John Watson se vê à beira da morte ao lado dos ossos de Redbeard.

Assim, as Aventuras de Sherlock Holmes ajudam na resolução do Problema Final: quando elas chegam ao seu clímax, Eurus finalmente aceita sua responsabilidade pelo que fez na infância. Quando fica em paz com Sherlock Holmes, Eurus se sente novamente digna de voltar para casa. Ou de pousar com segurança em Londres, deixando toda a morte, medo e culpa para trás.

Sherlock Holmes pode não ser real, mas, ao menos dentro da mitologia da série, sua jornada é essencial para salvar a mente de Eurus. É o momento em que a criatura se torna maior que o criador. E para os que tiveram a sorte de acompanhar essa jornada, fica o lembrete da bela mensagem final, o último consolo de Eurus:

“Quando tudo o mais falhar, teremos dois homens sentados, debatendo e discutindo em seu pequeno apartamento, como sempre estiveram e sempre estarão. Os melhores e mais sábios homens que conheci. Meus meninos de Baker Street; Sherlock Holmes e o Doutor Watson”.

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