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Narrativa em jogos digitais: a arte de contar histórias

Os jogos digitais transcendem sua função de mecânicas e interação, também contando com histórias muito envolventes.
Seja o suspense de Resident Evil ou as aventuras de Link em The Legend of Zelda, a narrativa contada vai sendo desbravada pelo jogador. O herói da aventura está focado pelos caminhos do jogo, sendo o principal agente transformador nos fatos apresentados interativamente.

Vamos conhecer um pouco sobre as narrativas aplicadas nos jogos digitais e destacar alguns conceitos da área. Afinal, uma boa história conta sim com criatividade, mas também boas práticas.

Um Pouco do Passado e das Narrativas

Se você pegar jogos digitais mais antigos, verá que eles têm uma temática apenas como pano de fundo. A história ficava mais a encargo do jogador imaginar que propriamente do jogo em si.

Pegue, por exemplo, o famoso Space Invaders trazia a destruição da Terra por extraterrestes e troque por King Kong destruindo a cidade e jogando bananas nos tanques de guerra que ficam abaixo. A narrativa teve grande impacto? Não. Ao trocarmos, percebe-se que ela era só um fundo para justificar as ações das mecânicas de jogo.

Mas isso começa a mudar. As histórias começam a ganhar papel fundamental e se tornam parte dos jogos. Já jogou games como Maniac Mansion, Grim Fandangos, Full Throttle, Dragon’s Lair, Alone in The Dark? A narrativa aqui tem toda a importância e são jogos famosos do passado. Foram fortes nesse conceito de histórias em games. Fora jogos como The Witcher 3, Final Fantasy, Dragon Quest, Pokémon, God of War, GTA e por aí vai diversos que a narrativa configura como importante no processo do game.

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Existiu até uma discussão entre o pessoal da ludologia e narratologia. O primeiro dizia que os mecanismos eram o mais importante no jogo. Já para o último, a narrativa era fundamental. Hoje, conclui-se que os dois combinados formam algo poderoso, melhorando ainda mais a experiência do jogador com o game.

Veja que evoluímos bastante e também aprimoramos essa arte. Olhe quantos recursos oriundos do cinema estão nos jogos. Cut-scenes e diálogos são alguns deles, fora as definições que pensamos nos roteiros como planos, storyline, personagens, fluxo da história e outros.

Mas, claro, o mais importante e fundamental: a interação. Jogos contêm texto, áudio, vídeo e interação. É necessário lembrar que, mesmo com a narrativa contribuindo com o jogo, a interação ainda é peça fundamental no processo. Senão, vamos assistir um filme.

Algumas Aplicações de Narrativas em Jogos Digitais

Existem algumas divisões sobre as formas de se aplicar as narrativas em jogos, principalmente narrativas ambientais, ou seja, com enfoque para criar condições de uma narrativa imersiva. São quatro tipos:

  • Forçadas: o que mais foi usado inicialmente nos jogos digitais. Você segue aquela ordem da história e precisa passar certos estágios para chegar ao outro da narrativa. É forçado a isso. Em certos pontos, a série Super Mario Bros. segue essa ideia;
  • Embutidas: são narrativas colocadas a qualquer momento do jogo. Você pode continuar a missão especial tranquilamente sem cumpri-la. Elas entram como complemento da principal. Um bom exemplo é Megaman X. Pegar todas as energias e tanques é uma opção que não te impedirá de avançar pela narrativa principal;
  • Emergentes: o jogador cria a sua história como ele bem pretende. The Witcher 3 tem elementos que permitem uma narrativa emergente. Conforme suas escolhas, a história sofre alterações. Mas jogos como The Sims dão total liberdade para um foco desse tipo;
  • Evocadas: esse último puxa narrativas que o jogador já conhece em outras mídias. Um jogo sobre “O Hobbit” ou do Batman evoca elementos que ele já conhece dos livros, quadrinhos e animações. Logo, parte-se de algo que o jogador já sabe para trabalhar a narrativa no game.

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A combinação dos métodos ajuda a criar uma narrativa bacana. Vale a pena observar isso nos jogos e ver que influência e sensação geram, o quão importantes se tornam para deixar a história interessante. Faça esse exercício.

Qual Caminho Seguir pelas Narrativas em Jogos?

A progressão de uma narrativa pode ter várias abordagens. No livro “Introdução ao Desenvolvimento de Games – Volume 1”, são trazidos alguns conceitos nesse sentido.

Um game como Spore segue uma linha sand box, pois os trajetos são feitos pelo jogador de acordo com o seu objetivo.
Já alguns são bem lineares, como Sonic. O caminho das fases já está pré-estabelecido e você segue aquela ordem e pronto.

Também tem histórias que são ramificadas ou com múltiplos ramos. “Star Wars: Knights of The Old Republic” segue essa ideia. Você vai tomando decisões e a história toma caminhos diferentes a cada escolha sua, seja para o lado da luz ou negro da força. Dessa forma, o jogador seguiu um dos ramos da narrativa.

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Por último, existe aquelas que levam a um foco. Muitas histórias tem vários caminhos, mas o final – ou um trecho específico – é sempre o mesmo para qualquer trajeto que seguir. Pokémon tem isso. Você sempre acabará virando um mestre no final. Fez vários caminhos, idas e voltas, treinamentos e tudo, mas o fim é sempre esse: vencer a Elite dos 4, vencer o atual mestre e tomar o seu posto.

Qual caminho seguir? Depende do teu propósito com a história. A união das técnicas faz a história se tornar rica.

A Jornada do Herói como estrutura narrativa

Uma abordagem para estruturar narrativas é a Jornada do Herói (ou o monomito). A origem vem do autor Joseph Campbell e traz uma estrutura bem sólida.

São alguns passos que levam a três atos:

  • 1º Ato: é apresentado o mundo comum do herói e o objetivo da sua aventura. É orientado pelo mentor e ele se prepara para enfrentar o que vem pela frente;
  • Transição do 1º ao 2º ato: travessia de limiar. Momento que ele topa a aventura e vai para o mundo especial da história;
  • 2º Ato: ele já sabe o problema que vai resolver e começa a trilhar pelo caminho em busca de desafios, aliados e inimigos. Também chega perto dos domínios do grande vilão e o enfrenta;
  • Transição do 2º ato para o 3º ato: momento de clímax da história. Ele sobrevive ao enfrentamento com o vilão;
  • 3º Ato: inicia-se o caminho de volta ao mundo comum e últimos desfechos com o vilão. O herói volta ao seu mundo medíocre, mas com um aprendizado que o transformou ao longo de sua jornada.

É uma estrutura com início, meio e fim bem definidos. Vários jogos a seguem. Faça o exercício de observar em cada game a estrutura e verá muitas aplicações. Livros legais para aprofundar são “O Herói de Mil Faces” e “A Jornada do Escritor”. Recomendo.

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Falamos de apenas alguns aspectos das narrativas em jogos digitais. Deixo claro que, para maior aprofundamento, teríamos que abordar vários itens voltados a tipos de roteiro (americano, europeu), planos e ângulos, sensações que passam, ponto de vista e outros que envolvem a história do jogo digital.

A quem interessar, recomendo explorar mais essa área. Creio que essa postagem já deu um gostinho para você desbravar mais sobre o assunto. Essa era a intenção.

Um abraço e até a próxima!

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