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Opinião: O que é ‘ser gamer’?

Um rapaz na casa dos seus 16 anos ganhou um PlayStation 3 de Natal. Modelo Super Slim, 250gb, bundle de Gran Turismo 6. Não é o seu primeiro videogame, mas representa um avanço monstruoso se comparado ao velho PS2 e seus DVDs pirateados da Santa Efigênia. Embora tenha vivido grandes aventuras com o velho guerreiro, não chegou a escrever nenhuma epopeia em torno de suas façanhas, muito porque não há muito o que recordar pra quem só jogou Bomba Patch. Por horas a fio, muitas e muitas vezes, diga-se de passagem.

Por que toda essa introdução? Tudo isso para levantar uma bola que há tempos eu ando querendo chutar, preferencialmente de trivela: o que é “Ser Gamer”? O rapaz da introdução acima pode ser considerado gamer? Pelos critérios impostos por entes superiores do alto de sua iluminação, de certo que não. Mas por quê?

 

Questão de valores

Não saber que o herói alado se chama Pit ou que existem dois Sub-Zeros é considerado falta grave. Você não é um verdadeiro gamer se não souber esmiuçar, detalhe por detalhe, cada uma das Timelines de Zelda. Jogos de futebol devem ser deixados de lado, tudo em detrimento de gêneros que combinem mais com o seu novo perfil gamer: RPGs com 50+ horas de duração, franquias esquecidas e títulos que sequer foram localizados para o português. O conceito da vez é ser ‘hardcore’, porque ser ‘casual’ é sinônimo de fracasso. Mas espera aí, achei que estávamos falando de jogar videogame e se divertir, o que eu perdi?

Gamer Casual – O gamer casual é aquele que consome jogos casuais, isso é, que não exigem grande comprometimento por parte do jogador, que podem ser jogados ou deixados de lado a qualquer momento.

Certo… Então, remontando a história dos videogames, o princípio de tudo era um universo de jogos casuais, já que não havia nenhum roteiro que não pudesse ser explicado em uma frase. Mas e aqueles caras que viraram noites e noites jogando Nemesis em um MSX empoeirado, também são casuais?

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A ideia de rotular o jogador parte do mercado, que busca setorizar seu público alvo a fim de atendê-lo de forma mais pessoal e eficiente. Ele curte Rock e vai ao shopping nos sábados? Temos o jogo certo para ele! Prefere um pouco de aventura? Espera aí, um lenço no pescoço e alguns itens arqueológicos e… tá pronto! Sim, todo esse universo de títulos existe apenas para abastecer cada um dos nichos de mercado criados pelos nossos comportamentos distintos. Mas e quando essa lambança deixa de ser mercadológica e passa a ser religião no Facebook, como lidar?

Quem está beirando a casa dos 30 viveu a era de ouro dos Arcades no Brasil, com a chegada de Street Fighter II ou a chuva de beat’em ups da Capcom e Konami. Se traçarmos o perfil padrão do frequentador assíduo das casas de jogos, vamos chegar na figura do homem de meia idade que mal sabe pronunciar os golpes que executa com perfeição. ‘Alex Full’ e ‘Tiger Robocop’ vieram de onde? Porque as revistas da época já traziam os golpes com seus nomes originais e grafias corretas (na maior parte das vezes, vá lá). O foco estava em se divertir, sem se importar em se aprofundar. Isso faria dos nossos motoboys viciados, meros jogadores casuais? Logo eles, que alimentaram tantas lendas nas rodas de amigos no recreio? Não é justo.

 

Uma questão de números

Se essa lufada reflexiva não lhe clarear as ideias, pense comigo: sabe aquele PS3 do alto do texto, bundle especial de GT6, produzido no Brasil com um preço competitivo se comparado ao mercado paralelo? Pois é, ele só existe porque se formou uma boa base de consumidores no Brasil. Adivinha quem compõe boa parte disso tudo? Se você pensou nos “não-gamers”, acertou!

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Segundo estudo da consultoria Euromonitor International, o mercado de games no Brasil cresce em média 26% ao ano. Boa parte disso se deve a redução de preço dos consoles, fabricados por aqui, além dos serviços de localização para o português e esforços crescentes para trazer novidades para cá. As empresas estão cada vez mais interessadas no nosso mercado e na forma como o jogador brasileiro se comporta. Só nos consoles? Com certeza, não. Um outro estudo revelou que até 2019 o mercado de games para tablets movimentará a bagatela de US$13.3 bilhões, aproximadamente 35 bilhões de reais.

Hostilizar o “não-gamer” é jogar contra a própria meta. Se mais pessoas compram, os preços caem. Na era dos 16 bits era relativamente difícil conseguir alguns jogos mais raros, principalmente se você não tivesse a opção de importar. Hoje, a situação é outra e a internet tem grande parcela de “culpa”, mas não é responsável sozinha pelo bolo. Edições de colecionador, itens raros, eventos especializados, publicações do gênero, novos empregos e acima de tudo, novos games!

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Jogar videogame, na concepção deste apaixonado que vos escreve, sempre esteve intimamente ligado a diversão. Hoje, me divirto escrevendo e acompanhando o mercado, jogando com o pouco tempo livre que sobra. Saber mais ou menos é questão de dedicar um tempinho para uma leitura, como você está fazendo agora. Aquela pinimba barata de ‘Sou gamer porque sei as melodias da ocarina de cabeça’ ainda faz algum sentido?

Se em algum momento da vida for essencialmente determinante classificar um cidadão como gamer ou não, espero do fundo da minha alma que o critério seja muito mais brando que o atual. Algo como “Querer se divertir” ou “Jogo quando posso”. Em tempos de tanta intolerância e segregação, que pelo menos com um joystick (ou tablet, smartphone, mouse, etc.) nas mãos estejamos todos falando a mesma língua.

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