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Análise: Qasir al-Wasat é o stealth que você nunca pensou que existiria

Muito antes dos disfarces de Hitman e das caixas de Metal Gear, os jogos de stealth já existiam; na verdade, o gênero começou com 005, um arcade da Sega lançado em 1981. Em uma tradução livre, “stealth” seria algo como “ação furtiva”, um nome bem apropriado para games que desafiam os jogadores a passarem escondidos por mapas para concluir um objetivo. Sempre com discrição, sangue frio e, no caso do Snake, um pouco de papelão, claro.

31 anos depois, os curitibanos da Aduge Studio queriam muito fazer um jogo desses, mas queriam fazer algo diferente. E, bom, as ideias para “um personagem se esconder dos vilões” já pareciam esgotadas e nada mostrava-se “realmente inovador” ou algo assim.

OK, eles não disseram isso pra mim, mas essa é uma das únicas reuniões de brainstorming plausíveis para a criação de Qasir al-Wasat. Teve sua estreia em 2012, com o subtítulo de A Night in-Between, e agora, com a alcunha de International Edition, está prestes a ganhar o mundo com a ideia que deve tê-los salvado naquela noite: “se vamos fazer um jogo cujo protagonista vai se esconder, por que ele não pode ser… tipo… invisível?

Uma história do Oriente

Toda a trama do jogo se desenvolve em um grande deserto, localizado onde fica, atualmente, a Síria, no século XII; ou melhor, em um místico palácio, controlado por um poderoso e nem tão confiável feiticeiro. Você assume o papel de uma criatura invocada de outro mundo por este mago, com uma missão relativamente simples: matar três servos e, como recompensa, pegar as suas poderosas armas. Essa passagem para outro plano têm suas vantagens e desvantagens: você tem a invisibilidade a seu favor, mas um único ferimento pode levá-lo a morte e, segundo seu contrato, a uma servidão eterna ao humano que te trouxe para cá.

Por mais que a criatura possa interagir com objetos e, fisicamente, com as pessoas do palácio, você não sai falando com todo mundo para saber o que fazer — afinal, você está escondido para cumprir os assassinatos. Toda a rica história do jogo vai sendo contada com diálogos entre os guardas e outros habitantes do lugar (que você pode ficar ouvindo) ou documentos encontrados pelas salas, salvos no menu para leituras posteriores. Contadas dessa forma, a conta-gotas, as surpresas do roteiro tornam-se ainda mais envolventes e bem-vindas.

Se sujar faz bem?

Esqueça o sabão em pó por um momento e tente pensar em qualquer obra ficcional que tenha alguém invisível. Existe uma grande chance desse personagem ter uma roupa especial (ou nem usar nada no corpo) para usar seus poderes; afinal, a habilidade é dele e não de todos os objetos em volta. Qasir al-Wasat segue a mesma premissa para o seu conceito básico: por mais que o protagonista seja invisível, isso não quer dizer que ele não possa ser percebido pelos guardas e todos os outros que encontrar pelo caminho.

Antes de tudo, é sempre bom lembrar que, no jogo, você pode enganar a visão das pessoas, mas não a audição. Cada passo dado por você pode (e vai) ser ouvido pelos guardas, que se aproximarão se o barulho aumentar muito. Pisar sobre a água cria ruídos ainda mais fortes e característicos, apontando a sua localização facilmente. Por isso, existe um botão de “furtividade” no título: segure-o enquanto anda para não chamar muita atenção e perder um pouco de velocidade. Mesmo assim, não invente em dar de cara com um dos soldados, hein?

Qasir al-Wasat

Sim, aquele vulto transparente é o tal do “protagonista invisível”

Esse modo não é útil apenas para isso, mas também pelo novo ataque que ele permite. Geralmente, você vai assassinar seus alvos e outros que estiverem no seu caminho usando suas garras; desse jeito, não vai ter como impedir que sangue manche o seu disfarce e aumente a sua visibilidade. Enquanto estiver furtivo, você pode usar um veneno para fazer esse trabalho e manter a utilidade de seu poder. De toda forma, passar por poças rasas vai deixar a situação mais limpa — no sentido higiênico da coisa mesmo.

Para ouvir, ver e ouvir de novo

Só de ver algumas imagens ou vídeos, você já pode constatar uma coisa: o visual de Qasir al-Wasat é algo que salta aos olhos. Ainda que tenha um estilo cartunesco, ele consegue criar uma atmosfera muito interessante e equilibrada; nem mesmo o protagonista invisível se perde nos cenários. A movimentação é que, às vezes, pode ser um pouco travada, mas nada que se torne um verdadeiro problema. O título ainda traz alguns puzzles, que não roubam a cena, mas são bem divertidos e combinam com a trama.

O verdadeiro destaque artístico do título você vai reconhecer pelos ouvidos, na realidade. Não que ele tenha trilhas memoráveis, inesquecíveis ou simplesmente grudentas, mas pela forma com que eles incorporam a música ao gameplay. Enquanto o protagonista consegue se esconder, ela se resume a poucas notas; agora, é só um dos guardas perceber algo para que a melodia acelere e fique carregada, aumentando a agonia de ser pego.

Um segredo a ser desvendado

Lembra daqueles jogos que você vai jogar e não vai esquecer deles tão cedo? Qasir al-Wasat é um dos novos integrantes dessa lista, feito aqui mesmo na nossa terrinha. Com uma ideia muito interessante, uma execução excepcional e poucas falhas, ele não é apenas recomendado para os fãs de stealth, mas também para aqueles que procuram uma boa história para desvendar e, principalmente, para os que gostam de ir aos poucos até chegar no fim de seu objetivo. O portal está se abrindo para o outro mundo: você está pronto para descobrir o que o deserto do Oriente lhe reserva?

Qasir al-Wasat

Ouvindo as conversas dos outros… Que feio!

Qasir al-Wasat: International Edition — Nota: 4/5

Desenvolvedora: Aduge Studio
Plataformas: PC, Mac, Linux
Plataforma utilizada na análise: PC

Cientista da computação em formação, sempre encontra tempo para falar sobre jogos, séries, filmes e viagens no tempo. Adora jogos musicais e puzzles e ainda vai te convencer a aceitar Back to the Future como o melhor filme da sua vida. No PlayReplay, você pode encontrá-lo escrevendo textos e fazendo vídeos.
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