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Retrô: Donkey Kong, o jogo que deu início à fase de ouro da Nintendo

Muitos sabem que a Nintendo foi a empresa que salvou a indústria durante o crash dos videogames na década de 1980. O que poucos sabem, é que a entrada bem sucedida da empresa no mercado norte-americano não se deu com o lançamento do Nintendinho, e sim com um jogo de plataforma muito simples desenvolvido por um jovem desenhista industrial e lançado no dia 9 de julho de 1981. Naquele tempo, os jogos de videogame eram muito diferentes dos que temos atualmente, e só o fato de um título possuir mais de uma fase já era algo revolucionário, algo fácil de perceber se considerarmos que Pac-Man, Pong e Space Invaders eram algumas das sensações do momento.

Além de possuir mais de um estágio, aquele jogo da Nintendo também contava com um enredo simples, personagens mais definidos e até com pequenas cenas que evoluíam o enredo do jogo. Tanta ousadia para a época só poderia ter vindo de uma empresa que sempre tentou trazer algo novo à indústria, mas tudo teve início na mente de um dos funcionários da Big N. O game em questão é Donkey Kong, e sim: o desenhista industrial novato era Shigeru Miyamoto. E para comemorar o aniversário da série, que hoje completa 33 anos, a gente preparou um Retrô bem bacana. Vamos lá?

 

A última cartada

Apesar de alguns jogos de plataforma já existirem naquela época, Donkey Kong ficou marcado como o primeiro deles, tamanha sua importância. A história de seu desenvolvimento é um pouco curiosa, já que o jogo surgiu de um esforço da Nintendo visando cobrir os prejuízos do fracasso de sua investida no mercado norte-americano com o Radar Scope.

O então presidente da empresa, Hiroshi Yamauchi, precisava de alguma boa ideia para reverter o prejuízo. Miyamoto, que trabalhava na empresa desde 1977 se propôs a criar um jogo para arcades que poderia fazer sucesso no ocidente, e o desenvolvimento foi autorizado por Yamauchi, contanto que Gunpei Yokoi (criador do GameBoy e da série Metroid), supervisionasse o projeto.

 

As aparências enganam

Sempre antenado nas novidades do mundo e com uma habilidade quase sobrenatural de prever tendências, Miyamoto tinha noção do quão única era a oportunidade que tinha nas mãos e sabia exatamente o que fazer para mostrar seu valor. Donkey Kong, personagem que dá o nome ao título, é o macaco de estimação de Jumpman, um carpinteiro que namora Lady. Enciumado e carente, o macaco escapa de sua jaula e sequestra a garota, levando-a para o topo de um prédio enquanto destrói tudo o que vê pelo caminho. Com isso, o carpinteiro deve chegar ao último andar do edifício enquanto desvia de obstáculos e de itens arremessados pelo seu simpático bichinho de estimação.

Mas de onde veio essa ideia de Miyamoto? A resposta, além de surpreendente, é completamente inusitada! Diferentemente do que muitos imaginam, Donkey Kong não foi criado a partir de King Kong, o clássico filme de 1931, mas sim com base na ideia de Popeye. Espera aí, Popeye? Exatamente! Na insana e ainda assim genial mente de Miyamoto, a relação entre Jumpman, Donkey Kong e Lady reproduzia o triangulo amoroso que ocorre entre Popeye, Brutus e Olivia Palito, em que o marinheiro sempre tinha que salvar sua namorada das mãos do vilão, que é tão forte quanto burro e desengonçado. Difícil entender a mente de alguém como Miyamoto, não é?

 

It’s me, Jumpman!

Ao ser apresentado à Nintendo of America, Donkey Kong foi muito criticado por não se parecer em absolutamente nada com os games do momento, que eram, em sua grande maioria, jogos de tiro e quebra-cabeças, mas ainda assim, foi decidido que o jogo teria uma chance. Durante o processo de localização de Donkey Kong, Lady recebeu o nome de Pauline, o que seria uma homenagem à esposa de um dos gerentes da Nintendo, e Jumpman passou a ser chamado de Mario, em referência a Mario Segale, proprietário do terreno em que a Nintendo desenvolvia suas atividades em Washington. Pois é, caros leitores, o maior ícone da história dos videogames surgiu sem grandes pretensões.

 

Escalando para a vitória

Donkey Kong possui quatro telas que se diferenciam por seu visual e tipo de desafio. Cada tela possui uma porção de fases, sendo que o conjunto delas representa 25 metros de escalada, o que faz com que Jumpman tenha que subir um total de 100 metros para salvar a sua amada. Seja se pendurando em escadas quebradas, subindo escadas rolantes ou mesmo pegando elevadores, o herói sempre está em perigo graças aos ataques do vilão, que a todo momento lança barris e bolas de fogo para impedir a sua escalada.

Salvar Pauline não é das tarefas mais fáceis, já que o feito exige concentração e cuidado do jogador para calcular cada movimento de Jumpman, que, além de andar, só pode pular. O personagem ainda pode coletar power ups pelas fases, como um martelo capaz de destruir barris lançados por Donkey Kong, mas ainda assim a escalada não é tranquila em momento algum.

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O segredo está nos detalhes

Para quem está acostumado com o estilo cinematográfico dos jogos de hoje, isso pode parecer bobagem, mas Donkey Kong foi o primeiro jogo a possuir cutscenes durante sua campanha. Mas não pensem que as cenas eram elaboradas e cheias de detalhes, já que elas aconteciam in-game e se limitavam a alguns poucos movimentos dos personagens. Pauline soltava corações e gritava por socorro e Donkey Kong mostrava sua raiva por meio de sua expressão, e isso, por si só, já era algo completamente novo no universo dos videogames.

O enredo, mesmo que simples, dava mais motivação aos jogadores, que não estavam jogando apenas por placares altos, mas também para salvar uma donzela em apuros. E tudo isso contribuiu para que o jogo fosse um sucesso, batendo recordes de vendas e içando o nome de Miyamoto para o estrelato.

 

As marcas do sucesso

O enorme e inesperado sucesso de Donkey Kong fez com que os lucros da Big N aumentassem muito, e trouxe frutos ainda mais valiosos à empresa. O sucesso dos personagens resultou no licenciamento da marca para diversos produtos infantis, que iam desde brinquedos até cereais matinais. Desenhos animados também foram produzidos e a Nintendo permitiu que a Coleco lançasse o jogo para seu console, o ColecoVision. Mais tarde, a própria empresa criadora relançou o título para o Game & Watch, o Nintendinho e o GameBoy, e hoje ela vem trazendo o jogo até para seus consoles mais novos por meio do Virtual Console.

A fama de Donkey Kong também deu origem a uma série de clones de diversas empresas que queriam tirar uma casquinha do sucesso que a Nintendo havia conquistado com o título. Até a Universal City Studios Inc., gigante cinematográfica responsável por King Kong, resolveu processar a Nintendo pela semelhança entre Donkey Kong e seu gigante de bilheteria. Essa batalha judicial durou anos, e teve a Big N como vencedora.

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O legado de um clássico

Donkey Kong não foi apenas um sucesso por ter inserido a Nintendo na competição pelo mercado ocidental, mas também por ser o marco zero da carreira de um dos maiores criadores de jogos do mundo. Mario e Donkey Kong logo se tornaram personagens-símbolo dos videogames, sendo que o encanador italiano é tão famoso para os jogos quanto Mickey Mouse é para os desenhos animados. Hoje, 33 anos depois, podemos pensar que Donkey Kong é só mais um joguinho bobo que ninguém mais liga, mas, na verdade, quando olhamos para este jogo, estamos diante de uma obra à frente de seu tempo, cuja qualidade e criatividade definiram as bases de uma indústria décadas após o seu lançamento.