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Retrô: Me devolvam os fliperamas!

Meu primeiro contato com uma máquina de Arcade foi há pouco mais de 20 anos. Na época, mal tinha altura para enxergar a tela inteira, então me contentava em babar com personagens que conheci apenas da cintura para cima. Com sorte, sobrava um caixote de fruta ou bebida que eu pudesse usar para ganhar uns centímetros, quando não estava soterrado em um mar de pessoas muito maiores que eu. Mesmo com todas as dificuldades, não arredava o pé do bar tão cedo, ou pelo menos nunca por vontade própria.

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Amor à primeira ficha

Parece ironia do destino, eu que raramente bebo (a foto ao pé da página é uma ilusão) ter minha infância diretamente ligada aos bares de esquina. Culpa minha? Acho que não, deve se tratar de um fenômeno da época ter nos arcades um substituto mais em conta para as mesas de bilhar e carteado, espaçosas demais para os menores ambientes. Motoqueiros apressados, estudantes que íam e vinham, gente de todo tipo e aquele cheiro de cigarro e bebida que me deixam tão nostálgico. Como diabos pude gostar tanto disso? Vou tentar explicar.

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Nesses idos da década de 90, ter um videogame de ponta era algo extremamente custoso. O primeiro console caseiro a receber uma conversão de Street Fighter 2 foi o Super Nintendo, que na época custava algo equivalente a R$1.500,00. Logo, usar a grana do lanche e da passagem de ônibus em fichas parecia algo muito mais próximo da nossa realidade, certo?

Outro ponto relevante era a superioridade de hardware que os arcades da época tinham, se comparados aos consoles de 8 e 16 bits que reinavam nos lares. Hoje, essa diferença é ínfima, se é que ainda existe. Gráficos não são tudo, mas naqueles tempos eram alguma coisa, ou pelo menos assim eu imaginava. Resta o terceiro ponto, sem sombra de dúvidas o maior de todos: os contras.

 

Posso colocar “contra”?

Não, não estamos falando do game de tiro da Konami, mesmo que Contra também tenha me custado algum dinheiro. Jogar contra alguém era desafiador, o equivalente à Justa do século XX, mas com pessoas normais no lugar dos cavaleiros. Boné para trás, uma estalada de pescoço, formava-se um círculo de curiosos em volta das máquinas e aquela pressão que te dizia, baixinho: você não pode perder!

Continuando com as comparações, ser o maioral dos contras era como liderar um bando de leões. Você adentrava o recinto e todos o exaltavam, até o dia em que você seria desafiado e derrotado, para que surgisse um novo rei. High-Scores eram tabus, medalhões, você os exibia com orgulho e territorialidade. Uma nova máquina no pedaço significava aumentar seus domínios! Era uma forte relação de respeito e admiração, algo que fazia meus olhos brilharem. Eu era muito mais espectador que jogador, e isso não interferia em nada na paixão que nutria. E como sinto saudades.

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As casas de jogos vieram…

… e a vontade de estar lá só crescia. Para “piorar” as coisas, abriram uma a 20 metros da escola onde eu estudava. Tekken 3, Marvel vs Capcom, The King of Fighters 97 e outros games da vanguarda da pancadaria estavam todos ali, dispostos em uma saleta de 10 metros quadrados. Aquele show de luzes e cores era hipnótico, mais ou menos como estar a cinquenta centavos do Nirvana. E eu queria ser bom em todos, embora não passasse do razoável em alguns.

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Em pouco tempo o modelo de negócio expandiu-se e os bares de uma máquina só começaram a encontrar alguma resistência nos famigerados fliperamas. Lendas nasciam e morriam a todo momento e a febre de arcades atingia seu auge. Simuladores de dança, de tiro, corrida, beat ‘em ups, Shmups e tantos outros coexistiam de forma pacífica, mas nunca com o mesmo encanto que um bom game de luta. A essa altura do campeonato eu já havia deixado de ser um mero espectador, mas estava longe de poder pagar os monstruosos R$2.000,00 de um Dreamcast (valor calculado com correção monetária sobre os R$900,00 da época).

Lembro-me claramente, inclusive, de um episódio curioso onde a diretora suplente da escola resolveu fazer uma “visita amigável” para nos retirar à força do que, dizia ela, seria um reduto de marginalidade. Sabia de nada, inocente! Aprendi muitas coisas com os games e nada me faria pensar de outra forma. Logo descobri que o problema era estar uniformizado, para depois ser tomado por um frio súbito que me fez ir à escola com duas camisetas, todos os dias.

 

… e se foram

Com o tempo, a febre dos fliperamas baixou. As locadoras faziam frente com hordas de PlayStations, enquanto os games de PC tornavam-se pouco a pouco mais acessíveis, principalmente com a internet que engatinhava no Brasil. Recolhiam-se as máquinas e doía um pouco descobrir que a minha segunda casa viraria uma loja de aluguel de vestidos ou qualquer coisa que o valha. Pouco a pouco, até mesmo os bares foram investindo em outras formas de tomar moedas (malditos jukeboxes!), enquanto eu andarilhava dando aquela vistoriada esperando achar uma máquina nova, mas via no máximo o espaço vazio e empoeirado.

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Passado um certo período de abstinência, o que era natural dado o choque, descobri que haviam transportado a ideia das casas de jogos para os infernais shopping centers. No lugar das boas e velhas máquinas MVS, CPS2 e Naomi, estavam os simuladores de jet-ski, máquinas de soco ou de bichinhos de pelúcia. Não cheirava a cigarro, não tinha motoboys e nem jogava-se contra. Era a elitização da fantasia, onde meia dúzia de voltas em um carrinho custava entre R$5,00 e R$10,00. Pouco me importei. Dali em diante, dei mais valor a cada console que tive e passei a cultivar as jogatinas debaixo do meu próprio teto. Perdida estava a sensação de desafiar o desconhecido, mas havia o conforto de economizar meu rico dinheirinho. Era a morte e vida Severina de um período dourado dos games, pelo menos em território tupiniquim.

Hoje em dia me sinto mais gamer que nunca, principalmente por estar diretamente envolvido com a cena. Consoles, portáteis, DLCs, multimídia, modernidade. Estou satisfeito em ser um jogador nos tempos de hoje, mas nunca deixo de dar um sorriso quando me deparo com um arcade perdido nos becos da vida.

– Vai um contra?