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Retrosfera Especial: Entrevistamos Cleber Marques

Essa coisa de entrevistar colecionadores é mesmo muito divertida! Primeiro, porque sempre descobrimos coisas novas que podem nos ajudar a dar um up daqueles em nossas próprias coleções. Isso, por si só, já vale o bate-papo de longe! Mas o principal motivo para essa sessão existir é, sem dúvidas, mostrar que mesmo que os artigos colecionáveis sejam tão distintos, o sentimento de apreço e carinho é comum e sublime.

Saindo um pouquinho dos consoles e cartuchos antigos, dessa vez nós conversamos com o Cleber Marques, dono de uma invejável coleção de revistas de games e administrador de alguns excelentes grupos sobre o assunto no facebook. Além disso, ele também assina seus artigos no Fanzine de Bits.


 PlayReplay: Como surgiu essa paixão e interesse pelos videogames?

Cleber Marques: Comecei a adorar os videogames quando tinha por volta dos meus 5 anos de idade, porém não foi por ter ganhado um console dos meus pais e sim por ser um testador oficial, calma que eu explico isso (risos). O meu pai trabalhou quase a vida toda como técnico em eletrônica e desde que eu nasci ele tinha uma Eletrônica onde arrumava os aparelhos que as pessoas levavam lá. Quando eu comecei a me entender por gente, percebi que estava diariamente ali com ele e para todo videogame que aparecia, eu era o responsável por testar, ou seja, tá ou não tá funcionando? Com isso, passou em minhas mãos o Odyssey, o Atari, o Famicom, o Nes, o Master System e depois começaram a aparecer alguns clones nacionais, como Phantom System e Top/Turbo Game. Este último marcou minha vida de uma forma tão grande que mantenho a admiração por ele até hoje, colecionando tudo que eu acho por ai com a marca CCE sobre jogos de Nintendinho. Então, devo esta minha paixão pelos videogames ao meu querido pai que me apresentou logo cedo a este mundo e ainda tinha uma opinião especializada para os testes que ele precisava (risos).

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Cleber e algumas edições clássicas diante da sede da Nintendo of America

 

PR: Devo admitir que foi um começo nada convencional! E as revistas de videogame, como começou a sua coleção?

CM: Meu pai entra aqui nesta história também. De forma indireta, mas ele está presente. Sempre gostei muito de ler e desenhar também, não lembro desde quando, mas sempre acompanhei o meu pai uma vez por semana indo nos sebos da cidade onde a gente morava pra comprar gibis usados. Era Tio Patinhas, Pato Donald, Mickey e muita Turma da Mônica. Com isso, peguei o bom costume de sempre frequentar sebos e bancas de jornal, atrás de gibis. Mas, certa vez, uma revista me chamou a atenção numa banca, porque até então eu só tinha olhos pros quadrinhos, com um grande monstro verde na capa. Essa revista era a GamePower nº 1 com o Blanka, lançada em julho de 1992. Eu estava com 9 anos de idade, mas o que me chamou mesmo a atenção não foi o Blanka e sim uma foto do Super Mario no pé da revista. Eu já era fã incondicional dele, eu era Nintendista desde os meus testes oficiais na Eletrônica do meu pai. Não foi aí que comecei minha coleção, mas foi quando tomei conhecimento das revistas de videogame.

A primeira edição que fui comprar com o meu dinheiro mesmo foi quase um ano depois, por volta de junho de 1993. Foi a GamePower nº 12, novamente com Street Fighter na capa (uma das mais belas capas já lançadas, na minha opinião). De lá pra cá, fui comprando conforme sobrava dinheiro, ou seja, quase nunca, porque eu nunca tinha dinheiro (risos). Mesmo assim, sempre que sobrava algo a prioridade era ter uma revista em mãos.

 

PR: A internet representa uma ameaça para as mídias impressas e há quem diga que revistas e livros têm data e hora para sumir das prateleiras. O que você vê de especial nas revistas, que a internet ainda não tem?

CM: Concordo que a internet é uma ameaça pra este tipo de mídia e já vimos muita coisa boa sumir por causa disso, porém não acredito que seja o fim. Sempre haverá mercado pra isso, mesmo que seja pequeno e segmentado. Fã é um bicho maluco, cara! Não deixa pra lá o que ama e a prova disso está aí, com os discos de vinil sendo lançados até hoje.  Se tem amantes, tem mercado.

Uma coisa que eu acho de especial nas revistas e que não tem como reproduzir em outro tipo de mídia é aquele cheiro do papel, tanto do novo quando chega da banca, quanto do papel velho daquela revista antiga. Disso, só não gosta a minha esposa, que tem rinite (risos). (N.R: Infelizmente, poucas esposas gostam)

Aquele ritual de segurar a revista nas mãos, abrir na página que você quer, ler de trás pra frente e de frente pra trás, do jeito que der na telha… é algo único, não se copia e muito menos se substitui. Ao contrário do que podem pensar, nem por isso eu deixo de gostar da internet. Poxa! Eu trabalho com Tecnologia da Informação numa das maiores empresas de software do mundo, uso internet desde 1997 e posso dizer que vi muitas revistas boas nascerem e morrerem, Isso foi, e é natural. Adoro fazer minhas pesquisas e leituras em sites e blogs especializados em videogames, como o PlayReplay. Isso me satisfaz tanto quanto as revistas, só não é nostálgico, mas sei conviver muito bem com ambos.

 

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Itens raros não poderiam faltar na coleção, como essas fitas VHS que vieram encartadas em algumas revistas da década de 90

 

PR: Mata a curiosidade da gente! Quantas revistas você tem hoje e qual é a sua favorita?

CM: Atualmente eu possuo um pouco mais do que 2150 revistas, só de videogame. Não conto as revistas especializadas como Herói, Animax e os meus gibis, senão seria muito mais (risos). Nesta minha coleção a única revista estrangeira é a Nintendo Power, que eu mantenho completa com muito orgulho. Como eu disse acima, sou Nintendista de carteirinha! No mais, as revistas da minha coleção foram as lançadas no Brasil desde os anos 80 até agora, e tem uma ou outra que eu não coleciono (das mais novas), mas tenho por volta de 95% de tudo que foi lançado no Brasil. Sempre gostei muito do teor jornalístico que estas revistas traziam desde as primeiras publicações. Adoro ler e reler, lembrar e anotar. Entre todas elas eu tenho tantas revistas preferidas, algumas por causa de matérias especiais, outras por terem sido decisivas em muitos jogos que já desbravei, porém a minha primeira revista, aquela lá de 1993, a GamePower Nº 12 é a minha preferida. Ela tem uma matéria sobre DuckTales 2 de Nintendinho, que sou muito fã. Pois é, sou mesmo, daqueles que tem os DVDs, todos os gibis, bonecos, jogos, essas coisas. Se fosse escolher uma publicação preferida, com certeza seria a GamePower.

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Sentimos sua falta, Nintendo Power

 

PR: O que você acha das revistas de games atuais lançadas no Brasil?

CM: Temos estradas rodadas de experiência aqui no Brasil, com lançamentos desde a década de 80. Logo, a gente sabe o que é bom e o que é ruim, respeitando sempre a mudança no mercado de lá pra cá. Foi possível ver muitas equipes fazendo um bom trabalho e este trabalho sendo engolido pela Internet. Da mesma forma, vimos também trabalhos mais simples durando mais tempo. Tudo foi questão de momento do mercado e eu acho que conseguimos nos adaptar muito bem. Não faria sentido e nem daria certo termos uma revista hoje em dia como o mesmo pensamento das revistas de antigamente. Não tem como vender revistas de videogame nas bancas hoje com dicas, truques e detonados. Por isso, o que vemos e o que temos são revistas que tratam o mercado de jogos de uma forma mais séria, com matérias mais maduras, detalhes de produção e estas coisas. Isso é legal, eu consumo, não vou negar, mas não tem o mesmo apelo do que a gente tinha antes com as revistas antigas. Não tem como ser como antes, o mercado mudou, as revistas mudaram e a gente também. Se eu fosse adicionar algo a receita das revistas de videogame atuais, seria um pouco mais de paixão.

 

PR: Que cuidados especiais você tem para conservar a sua coleção?

CM: Não acho que eu tenha um cuidado especial, quero dizer, que eu faça algo que outros colecionadores já não façam. Como eu sempre colecionei gibis, mantenho muito do que eu tenho hoje da mesma forma. No início eu empilhava as revistas dentro de um armário e achava que só isso era o suficiente. Além disso, fazia o controle da umidade e limpava elas com frequência.

Porém, com o tempo eu tive o grande desgosto de perceber que eu estava acabando com as minhas revistas, pois o atrito de uma edição em cima da outra fazia as cores das capas irem desgastando. Isso fica feio demais e acaba com o exemplar. Logo comecei a utilizar plástico pra proteger os exemplares. Ah! E não pode ser qualquer tipo de plástico também!

Outro problema das revistas empilhadas era a demora na hora de consultá-las. Demorava demais e quando eu queria um exemplar que estava na parte de baixo era uma loucura. Depois de muitos testes, cheguei a um método que me atende até hoje, que é manter cada exemplar dentro de plásticos do tipo Polipropileno, com abas adesivas que permitem fechar e abrir diversas vezes pra consultar. Além disso, procuro organizar como se fossem livros em bibliotecas, utilizando porta-revistas de acrílico. Fica um pouco caro, mas vale a pena. Eu descrevi o processo lá no Fanzine de Bits. Recomendo a leitura!

 

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PR: Eu já estou seguindo as dicas, Cleber! Mas por onde devo começar e que outros cuidados você recomenda?

CM: Comece pelo que te agrada e compre o que você acha legal, porque além daquela adrenalina do colecionismo, você terá um toque de nostalgia e isso não tem preço. Contudo,  recomendo sempre o cuidado pra não comprar por comprar, senão você acaba se tornando um acumulador em vez de colecionador (risos).

Crie seu próprio ritual, seja de compra, de leitura ou de organização. Faça disso um hobby e não um fardo. Uma dica muito importante é: Não comprometa o seu orçamento. Coleção é algo que deve te trazer satisfação, não pode ser algo que te prejudique. Tem colecionador que compromete seu tempo livre e seu dinheiro por não ter controle. Essa prática não é e nunca será saudável.

Tome cuidado com os preços, já que os vendedores estão por aí fazendo o papel deles e quando perceberem que você coleciona e quer alguma edição específica, vão se aproveitar. Eu já falei pra muita gente, minha coleção não me define, eu sou mais do que as minhas revistas de videogame. Logo, não adianta me oferecer uma edição que eu não tenho por um preço absurdo, que eu não vou comprar. Deixo passar fácil, não ligo de não ter (risos).

Por último, uma recomendação: se você é colecionador ou quer começar a colecionar revistas de videogame, compartilhe suas experiências com a gente lá no grupo Revistas de Videogame. Eu garanto que você será muito bem-vindo!

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Essa é a coleção do Cleber devidamente organizada

 

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