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Rogue One é tudo que o Despertar da Força deveria ser

O que torna Uma História Star Wars uma grande história sobre Star Wars? Com sete episódios e um spin-off no cinema, várias animações na televisão, e centenas de quadrinhos e livros nas bancas, cada fã da saga espacial criada por George Lucas deve ter a sua própria resposta para essa pergunta.

A minha é até bem simples: um bom Star Wars precisa ser divertido.

Para tanto, é necessário ousar e mostrar coisas que as outras interpretações da saga ainda não transmitiram. Ao mesmo tempo, quase paradoxalmente, também é preciso que se respeite a história pregressa e recompense o fã pelo seu tempo investido.

Star Wars não é apenas sobre um mais do que icônico crawl explodindo na tela ao som da linda orquestração de John Williams, nem deve ser limitado a empolgantes lutas com sabres de luz e as melhores naves e bonecos de ação que o dinheiro pode comprar. Não, cada lançamento de Star Wars é um evento que, além de somar todos esses elementos, é capaz de levar nossa imaginação para uma galáxia muito, muito distante.

Star Wars é fazer com que cada pêlo no seu braço fique arrepiado ao ver um AT-AT aparecendo no horizonte. É torcer pela aparição de personagens tão queridos que são quase amigos de infância. É chorar quando os heróis mostram o mesmo carinho e respeito pela Força que todos nós temos desde que vimos Luke treinar com Obi-Wan e Yoda.

Star Wars é respeitar o desejo dos fãs e usar a nostalgia não como um fim em si mesmo (entendeu, J.J. Abrams?), mas sim como uma ferramenta para construir histórias novas e empolgantes sobre um universo que todos conhecemos tão bem quanto as palmas de nossas mãos. É justamente isso Rogue One soube fazer como poucas obras lançadas depois da trilogia original.

Apesar de estar repleto de referências aos demais filmes e séries animadas, Rogue One é um longa com começo, meio e fim autossuficientes. Embora obviamente ele seja melhor apreciado por quem é versado na saga, não seria absurdo imaginar que um jovem possa se apaixonar pela série tendo Rogue One como sua primeira experiência Star Wars no cinema.

Afinal, pela primeira vez todos puderam ver na telona alguns temas fascinantes que ainda não haviam dado as caras fora do universo expandido. Por exemplo, ao invés do tradicional maniqueísmo que regia os embates entre a Rebelião/Resistência e o Império/Primeira Ordem, Rogue One pinta os horrores da guerra com uma moral bem cinzenta, um grato sopro de ar fresco.

Mocinhos tradicionais, os Rebeldes são mostrados como uma (des)organização repleta de interesses conflitantes. Heróis cometem atitudes covardes em nome de um objetivo maior, e outros chegam até mesmo ao ponto de virar extremistas orgulhosos. Em tempos de polarização política exacerbada, é digno de aplausos que a Disney tenha autorizado o ótimo roteiro de Chris Weitz e Tony Gilroy a tocar em temas tão espinhosos, mostrando alguns Rebeldes extremistas com indumentária similar aos nossos terroristas da ISIS. Pesado!

O diretor Gareth Edwards também merece muito crédito por conduzir a história com tato e elegância. Como em sua excelente versão de Godzilla, a jornada é mostrada em um crescendo constante, com cada ato ganhando mais adrenalina que o anterior, até que tudo exploda em um clímax inesquecível. Elogiar a ação em Star Wars chega a ser redundante, mas a batalha em Scarif é tão bem filmada que, possivelmente, representa a melhor tradução visual já vista em um embate entre o Império e Rebelião, superando até mesmo a clássica Batalha de Hoth.

Os personagens também merecem destaque. Enquanto Rey parecia conquistar tudo de mão beijada e sem esforço em Despertar da Força, a tripulação do Rogue One passa por perrengues o filme inteiro, constantemente sendo desafiada não apenas fisicamente, mas também moralmente, o que ajuda a torcer e simpatizar pelos novos heróis. Até o lado Imperial é bem trabalhado desta vez, mostrando as desavenças e embates internos em busca de ascensão na hierarquia.

Michael Giacchino faz um ótimo trabalho substituindo o mestre John Williams, e cria uma trilha superior a de O Despertar da Força

É claro que o filme não é perfeito: alguns personagens são menos explorados do que outros e nem todos encontram um desfecho tão bom quanto mereciam (por exemplo, compare a excelência do arco do vilão Orson Krennic com o fim corrido do piloto Bodhi Rook), além de nítidos problemas de continuidade e escala (de onde vieram tantos Rebeldes para a luta em solo do ato final?). Ainda assim, são apenas deslizes pontuais que não atrapalham em nada a imersão e diversão. Especialmente quando levamos em conta que os 10 minutos finais formam, possivelmente, o melhor e mais empolgante desfecho entre todos os filmes da série.

É praticamente impossível sair do cinema sem querer viajar para o futuro e ver novas e fascinantes narrativas sobre Star Wars no cinema. Fica a torcida para que o Episódio VIII aprenda com Rogue One como se faz um legítimo filme da série, apostando na força de narrativas inéditas pautadas em respeito aos fãs ao invés da recauchutagem vazia que infestou o capítulo anterior. Afinal, a força está com Rogue One!

Formado na arte de reclamar, odeia a internet. Ainda assim, sua hipocrisia sem limites o permite administrar a página facebook.com/thomasschulzeescritor , plataforma de divulgação do seu primeiro livro. Você também pode segui-lo em @thomshoes no Twitter, mas provavelmente é uma má ideia...
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