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Thomas Lá, Dá Cá #7: O preço da gratuidade

“Saíram os jogos gratuitos da PlayStation Plus do mês!”

“Hora de baixar os brindes da Gold!”

Certamente você já ouviu essas frases por aí. Afinal, todo mês ela é celebrada a plenos pulmões não apenas pelos jogadores, mas também pelas próprias empresas responsáveis pelos programas de assinatura. Opa, espera aí, programas de assinatura? Pois é, as boas e velhas PlayStation Plus e Live Gold são exatamente isso: serviços nos quais você paga determinado valor para poder usufruir de seus recursos por um certo período de tempo.

Parece (e é) óbvio, mas é bem importante focarmos nesse ponto. Olha só, por exemplo, o vídeo que a galera da Sony soltou essa semana para anunciar os games que entrarão no seu catálogo de recompensas em outubro:

São ótimos jogos, certamente, e eu mesmo sou bem fã de Broken Age, do genial Tim Schafer, um de meus desenvolvedores favoritos.

Vamos combinar que mesmo que você tenha optado pelo plano mensal de assinatura (o mais caro) em detrimento do anual (bem menos custoso), facilmente verá que o custo-benefício do negócio pode ser bem atraente para quem quer curtir uma biblioteca de jogos bacana apenas com um investimento modesto.

O que esses serviço não é, no entanto, é gratuito.

Nem tanto pelo fato de que, diferente da Gold, os jogos da Plus só podem ser usufruídos por quem está em dia com a mensalidade, mas sim porque os jogos citados como “brindes” só podem ser baixados após o jogador depositar sua grana nos fornidos cofres da Sony.

Desse modo, ter acesso aos jogos do catálogo mensal apenas quando se está em dia com a mensalidade não difere em quase nada de assinar um serviço de streaming. Já imaginou como seria insano se a Netflix adotasse uma jogada de marketing similar à da Sony e Microsoft?

“Assine Netflix e assista Demolidor de graça! Olha só os filmes que disponibilizamos de graça esse mês para você, assinante!”

Risível, não? Com um mínimo de analogia fica evidente o quanto o consumidor pode ser enganado na menor das jogadas de marketing. Ampliando a letra miúda que deveria estar presente em cada anúncio mensal de atualização do programa de fidelidade da Sony e Microsoft, teríamos algo como.

“Aqui estão os brindes da semana*” *para quem já pagou R$XX para se tornar membro do nosso programa de fidelidade”

Essa letra miúda, frequentemente tão pequena que sequer é exibida em releases de imprensa e na maioria dos sites de nossos colegas jornalistas, é bem parecida com uma jogada bem conhecida por quem visitava bancas de jornal na década passada.

Lembra daquelas revistas de computador? “Compre essa revista de 5 páginas por R$20 e leve de brinde um jogo completo”. Mesmo recentemente encontramos exemplos similares naquelas coleções de miniaturas, brinquedos e estatuetas. Algo como “Pague R$50 nesse folheto com mapa e ganhe uma miniatura de chumbo”.

No mundo dos videogames essa estratégia é especialmente nociva por estar vinculada à um abuso de cobranças. O PlayStation 3, cuja base instalada ultrapassa as 85 milhões de unidades vendidas (de acordo com o site VGchartz) consegue entregar jogatina online gratuita para seus compradores até hoje.

O Wii (quase 101 milhões de consoles) fazia o mesmo até ter seus servidores desligados alguns meses atrás. O Wii U (pouco mais de 10 milhões) não cobra nada dos jogadores para que a galera dispute rachas de Mario Kart 8, Super Smash Bros. e Splatoon, e certamente não vai cobrar pelas milhões de fases desenvolvidas em Super Mario Maker.

https://www.youtube.com/watch?v=kqpTpxAKQZs

Será que o PlayStation 4 (quase 25 milhões de unidades) precisa mesmo exigir uma assinatura de PlayStation Plus para manter os seus servidores funcionando? Ou cobrar alguns dólares mensais por isso, oferecendo em troca a ilusão de que há jogos gratuitos sendo disponibilizados, é apenas um pretexto para tirar ainda mais grana dos bolsos dos jogadores?

Em um tempo em que a galera está mais engajada do que nunca nas redes sociais, exigindo e cobrando suas vontades à torto e direito, soa até estranho que a “gratuidade” desses “brindes mensais” escape incólume da ira dos floquinhos de neve.

Aos colegas jornalistas e formadores de opinião, fica o apelo para que paremos de usar manchetes como “Aqui estão os brindes do mês”. Aos queridos leitores, o pedido para que sempre avaliem bem onde e como investem seu dinheiro. Afinal, assinar a Plus e a Gold ainda é um baita negócio e custo-benefício.

Só não é de graça.

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