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Thomas lá, dá cá #9: Derek e a vitória da bondade

A gentileza é algo mágico e pode vir dos lugares mais inesperados. Até mesmo de uma das mentes mais sarcásticas e ácidas do planeta.

Estamos falando, é claro, de Ricky Gervais, um dos maiores nomes do humor britânico, responsável pela criação e roteiro de séries como The Office e Extras, mas também lembrado por sua stand up comedy, atuação (O Primeiro Mentiroso), direção (Caindo no Mundo) e até polêmicas apresentações no Globo de Ouro.

Um currículo e tanto para um homem que é tão comprometido em fazer um humor doa-a-quem-doer como em ajudar animais, causas humanitárias e promover a igualdade. Pensando nisso, até que demorou para as duas facetas de Gervais se encontrarem em uma só obra.

Em Derek (disponível exclusivamente na Netflix em duas temporadas mais um episódio extra especial com maior duração), Ricky nos apresenta a uma de suas mais inusitadas criações: um homem extremante bondoso e inocente. Uma inocência tão inconcebível para a nossa sociedade que, num primeiro momento, é inevitável que os personagens e espectadores acabem rotulando o pobre Derek como “especial”. Não demora para descobrimos que o adjetivo é uma descrição perfeita, só que não da forma que imaginávamos.

O amor de Derek pela vida é algo cativante e, não por acaso, cada episódio tem o poder de nos fazer refletir sobre nossa própria existência e, caso você se permita tocar pela magia da coisa toda, até derramar algumas lágrimas de pura gratidão.

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Soa piegas, claro. De fato, é. Mas quem disse que há algo de errado com isso? Por residir e ajudar em um asilo para velhinhos, Derek acaba ficando em constante contato com a morte. Só que, paradoxalmente, o ambiente também acaba funcionando como um lembrete de tudo que a vida oferece de melhor. É aí que começamos a vislumbrar o quão especial a influência de Derek é para todos aqueles afortunados o bastante para conhecê-lo.

Seja nas festinhas organizadas quando um novo habitante se une ao grupo, animais que vêm alegrar a tarde, ou mesmo em inusitadas celebrações musicais – com direito a senhores e senhoras fazendo show fantasiados de Duran Duran! -, cada dia com Derek e seus amigos é uma pequena aventura e aprendizado.

Sempre há espaço para o humor — é uma série de dramédia, afinal —, mesmo nos contextos mais inusitados. Normalmente ele fica a cargo de Kev (David Earl, perfeito no papel) e Doug (Karl Pilkington, parceiro de longa data de Ricky), mas nem por isso você deve encarar a série como mais um mockumentary.

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Não espere, por um segundo, que a sua experiência com Derek seja lembrada mais pelos risos do que pelas lágrimas. A série é bem divertida e agradável de assistir, mas só vale a pena embarcar na jornada se você estiver a fim de encarar a obra com a mente e o coração bem abertos.

Afinal, entre tramas sobre a reconciliação com entes queridos antes que seja tarde demais e amar os animais e o próximo pelo tempo que nos resta nessa terra, é impossível não fechar as temporadas sem traçar vários paralelos com sua própria vida. Nem tudo dialogará diretamente com você, claro, mas são grandes as chances de que você sinta enorme empatia por boa parte dos dramas expostos.

Nisso, Derek acaba ganhando até um papel de auto-ajuda, pois seu tom otimista e descontraído pode ensinar aos mais dispostos o valor de encarar a vida sempre com um sorriso no rosto, promovendo o bem a gentileza para nossos irmãos.

Afinal, a gentileza é mágica. E o último trabalho de Ricky Gervais também.

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